Carta ao meu pai (Depoimento de uma amiga)

Mamães, agora é papo sério! Recebi esta carta de uma querida amiga, que após 22 anos de união teve seu casamento interrompido e, a partir de então, passou a criar um filho de 2 anos de meio sozinha. Digo sozinha, por conta das inúmeras responsabilidades que ficam a cargo da mãe. É um relato emocionante sobre a dor da ausência de um pai, causada pela separação de uma família, e suas consequências. Sabemos que casais se separam, isso é normal. Mas a relação entre pais e filhos deveria ser para sempre…

Papai,

Como você sabe, eu só tenho 7 anos, mas há muito tempo eu precisava escrever esta carta… Eu fingia que não precisava e mentia para mim mesmo, dizendo que um dia você escutaria meu coração e que tudo daria certo. Tentei conversar com você, chorando muitas vezes na sua frente, pois não sabia me expressar, falei pessoalmente, pelo telefone e, agora, que já sei escrever, até enviei mensagens pelo whatsapp. Infinitas vezes, eu pedi para você voltar para casa ou morar num lugar mais próximo, para ficar um pouco mais perto de mim e me ajudar em, pelo menos, algumas das minhas necessidades de criança.

Você nos deixou há quase cinco anos, o mesmo tempo em que sinto meu coração dolorido para acordar, estudar, brincar, dormir sem você e, principalmente, ajudar a minha mãe a levar a vida. E você, que também deve saber o que é ter um coração dolorido, pode tentar me entender nesta dificuldade. Já parei diante de você tantas vezes para que me olhasse, me ouvisse, me amasse… então eu peço, desta vez, que você me enxergue por inteiro, não deixando esta carta num canto qualquer.

Aqui, tem uma mistura de saudades e imaginação do que a gente não viveu, e da promessa de um futuro abruptamente interrompido por um desejo exclusivamente seu. Este sou eu, este somos nós. Chegou a hora de encararmos o que fazer da nossa história, para então fazer o amanhã nascer de novo. Sem esta carta, tenho a impressão de que não haverá amanhã entre nós. E eu não sei quanto a você, mas eu estou muito necessitado de um futuro em que você exista para mim.

Quando você foi embora de casa, eu me lembro dos dias e das noites de choro, dos gemidos altos de socorro e, outros tantos, silenciados pelo travesseiro. No caminhão que levou seus móveis para Itaguaí, foram também, de mudança, nossos sonhos, futuro, segurança, estabilidade financeira, paz, felicidade, amor. Mala. Alma. As mesmas quatro letras. A mesma mala que partiu a alma de minha mãe, levou a nossa esperança com você.

“Eu reverencio demais o amor dela por mim, porque nele mora a tarefa impossível de reparar as feridas e a falta que você deixou na minha história.”

Minha mãe tem várias profissões, mas percebo que ela é incansável na busca de se superar na profissão de “amor a um filho”, que está tendo que criar sozinha. Ela participa de tudo que diz respeito a mim. Esforça-se para que eu cresça equilibrado e feliz e, mesmo exausta, não deixa de ver meus cadernos, me colocar no colo, brincar, conversar comigo, rezar e ler um livro.

Ela não precisa de você para existir, ela é uma pessoa independente, mas que está juntando seus pedaços para ficar inteira, como eu também. Sou a tartaruguinha da música: “o papai do céu está juntando os meus caquinhos…” Enquanto ela vai se recuperando de suas cicatrizes de mulher, eu acompanho tudo de perto: ela finge para mim que não chora, dizendo que está apenas resfriada. Mas ao mesmo tempo eu a ouço chorando, falando sobre você com minha vovó, enquanto eu me escondo atrás da porta ou embaixo da escada. Claro que, desde muito cedo, eu escutava e já entendia que não era somente um pedaço do futuro dela que tinha sumido, era uma parte da nossa identidade também, como família, como pessoas, como sociedade. Era nossa vida, como a conhecíamos, que tinha ido embora. Eu escutava, em silêncio, cada conversa dela, a procura de uma explicação e de um sentido justificável para o seu desaparecimento.

Eu só podia acreditar que o problema era comigo. Eu pensava ser uma criança ruim, e deveria ser muito ruim mesmo, pois fiz um pai desistir de mim. Afinal, o meu pai ama mais a si mesmo, sua vida e outra mulher do que a mim. Mesmo sabendo da indescritível tristeza que essa decisão causou em tantas pessoas, a sua conclusão foi também a de que eu não valia a pena. E foi o que realmente eu senti: que eu não valia a pena. Ainda me sinto culpado, pois eu sou um fardo, um peso, um trabalho muito pesado a sobrecarregar os ombros exaustos de uma pessoa que mal consegue se manter de pé: minha mãe e a depressão que a acompanha.

Ela sempre fez o seu melhor. Participou de tudo da minha vida, na escola, no futebol, na capoeira, no tênis, na aula de música, no inglês, nas brincadeiras, jogos, festas, clube do livro, nas viagens, férias, passeios, médicos, alimentação, apresentações, nas organizações das minhas festinhas de aniversário… tudo… tudo… sem ninguém para compartilhar. E mesmo cansada e muitas vezes, doente, ela jamais deixou de fazer algo por mim, porque seu amor permitia que ela tivesse forças para me abraçar mesmo com aquele sorriso tristonho no olhar.

Eu via os olhos dela perdendo o brilho, as olheiras escurecendo… Sem querer, ela exigia de mim mais do que eu tinha para dar. E, no momento seguinte, chorava, me abraçava e me pedia perdão; dizia que a vida é dura e que me amava; e, eu, com as minhas mãozinhas pequenas enxugava o seu rosto.

Demorei a entender que eu, tantas vezes, era você, pai. Ela via você em mim. Ela via você no meu corpo crescente. Ela via em mim toda dificuldade de viver sozinha numa sociedade exigente e machista. Ainda é difícil de entender, mas não importa. Tudo que importa é que eu, Felipe, a amo e jamais a abandonarei.

Você aparece de vez em quando, é verdade; você cumpre a ordem judicial. Sempre nos dias combinados eu fico te esperando e ainda tenho a esperança que você pode ser aquele pai dos meus sonhos. Mas quando você aparece, daquele seu jeito, me chamando de filhote, me levando para sua casa, me misturando a qualquer bocado de gente que não me importa, que não é a minha família, me levando a lugares que não me interessam e fingindo uma intimidade que já perdemos há muito tempo, eu me dou conta de que esse pai não existe. Nessas horas, a saudade da minha casa e da minha mãe sempre aparecem com muita força. Eu queria estar na minha casa e não, na sua. Eu queria você, meu pai, e não um personagem vivendo uma realidade num mundo que não faz parte da minha vida. Mesmo quando eu estava perto de você, eu não conseguia sentir a sua presença, mesmo abraçando a sua pele, eu não conseguia sentir o seu cheiro. Eu não tinha você. Desde os meus 2 anos e meio, quando eu comecei a frequentar o seu novo mundo, nunca fomos só nós dois. Eram seus passeios, suas viagens, suas festas, as suas escolhas. Você nunca se tocou que meus amiguinhos estão aqui e que eu nunca os poderei convidar para conhecer o meu quarto ou brincar comigo na sua casa. Boa parte deles nem sabe quem é você, quanto mais o seu nome. Sempre tenho que responder às mesmas perguntas: por que seu pai não veio? Quem é o seu pai? Por que ele não mora com você?

“Eu cresci assim, pai, olhando para um espelho quebrado de mim, em que faltava um pedaço de você, me sentindo imperfeito, distorcido e incompleto.”

Todas as vezes, depois de passar um fim de semana com você, eu chego em casa e meu corpo começa a tremer, pois sei que ao direcionar meu olhar para o rosto da minha mãe, encontrarei a mais profunda solidão estampada nos seus olhos lacrimejantes e no medo em que ela sente de não conseguir realizar sozinha todas as tarefas que a vida a impõe.

Eu estou aqui, trazendo a verdade para ser lida pelos seus olhos e, principalmente, sentida pelo seu coração, que demonstra sempre um certo desprezo pelos nossos sentimentos.

A história da minha mãe é longa e, mesmo que ela não exista mais para você, ela existe para mim. Por isso, preciso desabafar. Esta semana, após você dizer que ela fala sempre as mesmas coisas e que nada pode ser feito para mudar a situação, ficou claro para mim que você me vê como um ser isolado, esquecendo completamente que enquanto eu for criança, eu faço parte dela e ela faz parte de mim. Pais realmente não são perfeitos, muito menos heróis, mas precisam de sensibilidade e amor para se fazerem presentes. Você escolheu me deixar sozinho com a minha mãe. Você jogou sobre ela toda a minha criação quando resolveu morar em outra cidade. Você fez duas escolhas: a primeira, foi tirar de você o peso de muitas responsabilidades; a segunda, foi se afastar de mim, ao morar a quilômetros de distância.

Estamos nos perdendo… Eu quero convidar você a voltar seu olhar para aquele pai que você foi, para então poder escolher voltar para mim como seu filho. Estou bem cansado dessa guerra interior… Eu ando a procura de uma única batalha no fortnite: lutar pelo seu amor e, consequentemente, pela sua presença. São tantas emoções represadas, por isso imploro: venha abrir as comportas da minha alma que é sua também, pai. Existe um rio que precisa fluir, com águas que curam e lavam as feridas evidentes de um filho que se machucou muito quando sua casa desabou.

Eu espero por você, pai.
Eu espero por nós dois.

Do seu filho.

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Author: Paola Lobo

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  1. Como faço pra comprar estas etiquetas?

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