Medo da babá eletrônica

Antes de ter filhos, o objeto mais odiado da minha casa era o despertador. Como não podemos viver sem ele, é um mal necessário. É como dormir com o inimigo. Ele está ali para interromper seu sono, tirar sua tranquilidade. Alguns se disfarçam de bonzinhos e o acordam com sua música preferida. São lobos disfarçados de cordeiro.

Mas passei a achar os despertadores caras legais depois que conheci uma coisa muito, muito, muito pior: a babá eletrônica. Ela é má. Ela tira nossa paz. Finge que está ali para ajudar, mas só atrapalha. Ao contrário do despertador, não foi criada para te acordar, mas sim para não te deixar dormir.

Hoje em dia nada me mete mais medo do que o som da babá eletrônica. Só de ligá-la, sinto arrepios. Aquele chiado ambiente contínuo causa um suspense, uma sensação de que algo ruim vai acontecer. Você não consegue relaxar pelo simples fato de ela estar ligada. É o barulho do medo.

Ligar esse troço é a última coisa que faço antes de tentar dormir (porque mãe não dorme, mãe tenta). Ela finge que está tudo bem. Mas basta você se acomodar quentinha debaixo do edredon para – tcharam!!! – ela mostrar suas garras.

Tenho a impressão de que o poder amplificador da babá eletrônica foi retirado de algum trio-elétrico de Salvador. Ela é capaz de transformar os sons mais suaves – tipo a respiração do bebê – num tufão. E quando a criança se mexe no berço? Misericórdia… Parece que a casa está desabando. Um espirro, então… Já o choro, tenho certeza de que São Jorge escuta da Lua. Isso não pode ser do bem.

O requinte de crueldade é tanto, que inventaram babá eletrônica com câmera. Além de ficar ouvindo sons medonhos, você dá uma olhadinha naquele monitor sinistro. Sim, ela enxerga no escuro. Tenso. Tipo “A Mão que Balança o Berço”. E, quando você vê braços e pernas abanando, é de gelar o coração.

Essa malvada também adora dar alarme falso. Você ouve um estrondo, vai cambaleando ao quarto do bebê e não é nada. Tudo no mais absoluto silêncio. Eu hein. Volta para o edredon e, quando está quentinha, vem o estrondo de novo. Só pode ser mais uma artimanha dessa máquina traiçoeira.

Por essas e por outras, que só a ligo durante o dia: para fiscalizar as artes da criançada enquanto estou arrumando a casa. À noite, fizemos um trato. Uma deixa a outra descansar. Ela fica desligada e eu só levanto da cama quando escuto realmente choro do bebê. Não ouço mais gemidos, nem sussurros, nem espirros. Hoje em dia, voltei a amar meu despertador. Ele só me acorda quando peço.

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Author: Paola Lobo

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