Relato de parto, por Ludmila Melo

Parto domiciliar em Montreal, escrito para Eva

Vínhamos nos preparando para a sua chegada desde o comecinho dessa segunda gravidez, que descobrimos no início de julho, logo depois da nossa mudança para o apartamento da rua Fullum. Ficamos felizes em ser aceitos para ter o acompanhamento das parteiras do CSSS Jeanne-Mance, garantia de um parto natural e com muito respeito, além de consultas humanas e demoradas nas quais conversávamos muito, o que transmitia para nós, pais, muita segurança. Optamos por um parto domiciliar e assim foi. A gravidez correu tranquila. A Lise, nossa querida Doula, vinha nos ver uma vez por mês aos domingos. Seu irmão  Gael,  nessas ocasiões, ia passear à tarde na casa da vovó enquanto eu e ela conversávamos sobre a sua chegada: o que eu sonhava sobre você a noite, meus medos, minhas vontades e desejos. No final de cada encontro, Lise me fazia uma massagem e,  depois de bem relaxada, fazíamos uma meditação de hypnobirthing. Depois, era a vez do Papai ser massageado, enquanto eu aproveitava para tomar um banho bem relaxante. Em seguida, íamos buscar o Gael na casa da sua avó.

Os meses passaram e nós duas estavámos ótimas. Você crescendo direitinho, eu engordando e trabalhando feliz com os meus alunos. Tive uma turma ótima nesse ano letivo de 2014-2015, tanto é que não quis parar de trabalhar… Até que um susto (um acidente de carro que me tirou da estrada e me jogou em plena neve)  me fez parar de trabalhar poucas semanas depois.

No finalzinho da gravidez, comecei a fazer acupuntura, para preparar meu corpo para o parto. Saía de lá sempre bem e relaxada. As consultas com as parteiras agora eram semanais.

Por coincidência, tivemos uma consulta de manhã cedo no dia 24 de fevereiro com a nossa parteira. Fomos deixar o Gael na creche da vovó e seguimos para a consulta. Chegando no consultório da Charlotte, brincamos: «Quase te ligamos hoje cedo para dizer que a consulta ia ser lá em casa, porque achamos que vai ser hoje!!!» Ela riu, perguntou dos sinais… Estava tendo contrações irregulares desde as 3h da manhã. Às 3h30 Gael acordou. Somos muito ligados. Pedi para o seu pai atendê-lo  essa noite, pois queria descansar antes do TP engrenar de vez, afinal, poderia ser logo. Ele foi, mas Gael estava inconsolável. Queria a mamãe. Fui. Fiquei grudada com ele na cama até de manhãzinha. As contrações continuavam, mas eu estava curtindo essa noite só nossa, dele como filho único, pela última vez. Nos despedimos da Charlotte e ela falou para darmos notícias no decorrer do dia. Disse para ela que tinha marcado acupuntura para aquela mesma tarde e que telefonaríamos  depois da consulta.

Às 3h da tarde, fui para a acupuntura, a pé. Pedi para a Judy: “estou pronta, quero que seja hoje, pois estou tendo contrações irregulares desde as 3h da manhã e nada do trabalho engrenar”. Ela sorriu e fez sua mágica com as agulhas. Por precaução, nesse dia seu pai veio me buscar na acupuntura. De lá, fomos pegar o Gael na creche da vovó. Ficamos até as cinco da tarde, mas eu já sentia as contrações mais fortes e mais ritmadas. Estavam doloridas e não somente «incômodas».

Fomos para casa. Vovó e tio Ryan nos acompanharam. Enquanto Gael e tio Ryan brincavam, ficamos pela sala. Conversávamos entre as contrações, que eu estava recebendo sentada na minha bola de pilates. Ligamos para a Dinda no FaceTime para contar as novidades. Jogamos conversa fora entre as minhas contrações. Informamos a Charlotte do andamento das coisas por volta das 7h30 da noite. Estava tendo contrações a cada 3 minutos e elas duravam em média 30 segundos. Disse que estava bem. Combinamos de ligar uma hora depois. Avisamos a Lise para jantar e descansar, pois logo ligaríamos pedindo para que viesse. Ás 8h40 ligamos de novo para a Charlotte, mas estava tudo na mesma. Ela veio nos visitar, ja que mora pertinho. Pedi um exame de toque, o primeiro de toda a gravidez. Precisávamos saber se ia ser mesmo essa noite, para a vovó  levar o Gael para a casa dela conforme o combinado. Estava com 4 cm de dilatação. Charlotte confirmou que seria logo. Gael, vovó e tio Ryan foram embora.  Ligamos para a Lise, que disse que ja estava vindo.

A essa altura do campeonato, estava recebendo as contrações de quatro na sala, apoiando meus braços na bola de Pilates. Ouvia a música que escutei durante toda a gravidez nos momentos de massagem e de meditação com o hypnobirthing. Papai massageava as minhas costas a cada contração, e eu respirava fundo com cada uma delas. Lise chegou por volta das 10 da noite. Permaneceu comigo, fazendo aromaterapia e falando as palavras de apoio de sempre, combinadas no hypnobithing. Papai continuava massageando. As contrações cada vez mais fortes, e numa delas, a bolsa estourou. Tirei a calça, troquei de blusa. Protegemos o tapete e permaneci na mesma posição, concentrada. A cada contração, saía líquido amniótico. Por volta das 11h da noite, Yvette, a segunda parteira, chegou. Ela e Charlotte vinham escutar o seu coração de vez em quando, sem nunca atrapalhar a minha sintonia com a Lise e o Papai. Tudo corria bem. Tive vontade de fazer xixi. Yvete me aconselhou que fosse ao banheiro e ficasse lá algumas contrações para ajudar o bebê a descer. Fiz xixi e fiquei sentada. Papai, sentado na beira da banheira ao meu lado, continuava massageando minhas costas com uma mão, enquanto a outra, quentinha, fornecia calor à minha barriga, que já tinha diminuido bastante com a perda do líquido amniótico. Ele sentia as contrações cada vez mais fortes enquanto acariava você de fora da barriga. Apoiei minha cabeça na dele, foi a posição que encontrei. A outra mão, apoiada na Lise, que massageava um ponto preciso entre o polegar e o indicador para aliviar a dor. Vocalizava durante as contrações.

Fiquei em pé, e para aliviar o calor que sentia, liguei a água fria. Permaneci apoiada na pia por algumas contrações, molhando as mãos e o meu rosto e bebendo água gelada. Fui para a cama por volta da meia-noite. Pedi para ser examinada: estava com 6 cm de dilatação. Yvette me aconselhou a caminhar para ajudar o bebê a descer, pois ainda faltava dilatar mais. Na minha cabeça, pensei: “Depois do quinto cm, para mim, tudo corre bem rápido, ela nao sabe de nada…”. Só consegui falar que não conseguiria andar, a menos que fosse pendurada no pescoço dela. Todos riram. Permaneci na cama alguns minutos, mas as contrações, deitada, eram bem mais dolorosas. Falava que estava cansada e que queria apenas dormir um pouquinho. Claro que não era possível. Mas falei o que senti na hora… muito cansada.

Voltei para o banheiro meia-noite e meia, outro xixi, novas contrações, quase sem tempo para me recuperar entre uma e outra. Já sem conseguir falar, levantei, apoiada no pescoço do Papai e fui para o corredor. Lise atrás de mim, não parava de falar suas palavras de conforto. Não suportava nenhuma contração sem a presença dos dois, fazendo exatamente aquilo que estavam fazendo: Papai massageando e Lise falando e apertando o ponto entre o polegar e o indicador. No corredor, não conseguia ficar em pé. Agachei, apoiada ainda no pescoço do Papai. Falei para todo mundo: tô sentindo que o bebê já  vem. Charlotte falou «Vamos logo levar ela pro quarto»… Não esperei tentarem me levantar. Assim que a contração terminou, fui andando de quatro para o quarto. No caminho, parei algumas vezes, novas contrações e sentindo o bebê cada vez mais perto de nascer. Cheguei entre a cômoda e a cama, outra contração. Era quase uma hora da manhã quando me perguntaram se eu queria ir para a cama, ficar onde estava, ou sentar no banquinho de nascimento. Reuni todas as minhas forças para falar que era tarde para escolher. Nova contração, círculo de fogo à uma hora da manhã. Yvette ficou atrás de mim e viu a sua cabecinha coroando.

Foi muito mais rápido do que imaginavam, afinal, dos 6 cm nos quais estava à meia-noite e quinze, só se passaram 45 minutos e você já estava nascendo. Uma hora e quatro da manhã nasceu sua cabecinha. Você fez sozinha o movimento de se voltar para o lado. Uma hora e cinco da manhã, seu corpo saiu de mim de uma vez só, macio, lisinho, uma delícia. Todo mundo falou para mim: « pega seu bebê!». Larguei o pescoço do seu pai e aparei você.

Sentei no chão com você no meu colo, com o cordão ainda dentro de mim. Falei: «Que cara brava!» Ficamos olhando para você, maravilhados com você, que já nasceu expressiva. Fui para a cama. Você ficou em cima de mim. Cobrimos as suas costas. Papai sempre do nosso lado. 1h27 saiu a placenta, depois de algumas contraçõoes incômodas que faziam doer minhas costas.

Você já estava ali procurando o peito. Deixei rolar o momento e aconteceu. Faltavam dez para as duas da manhã e você já estava mamando como uma profissional, deliciosamente. Quando terminou, Papai cortou o seu cordão umbilical, que já tinha parado de pulsar há tempos. Ficamos os três ali, em família, bobos com você por vários minutos…

Você nos surpreendeu quando, ainda sem fralda, fez o primeiro xixi. Rimos, trocamos os paninhos. Só bem depois, às 3h30 da manhã, foram feitos os exames e cuidados, com você sempre no nosso colo. Não pingamos colírio nos seus olhinhos, mas você tomou a vitamina K. Nada desnecessário foi feito. Você estava muito saudável, apgar 9-10-10. Pesou 3,100kg, mediu 50cm e nos encheu de felicidade desde esses primeiros momentos.

A chegada de Eva

A chegada de Eva

Levantei em seguida. Tomei banho. Antes de irem embora, Charlotte nos apresentou a placenta, explicou tudo que poderíamos querer saber a respeito. Deu instruções sobre como guardá-la, pois a intenção era encapsular e consumir. Deixaram tudo muito limpo, a cama pronta para a noite e Yvette falou que vinha nos examinar nas próximas 24 horas e no terceiro e quinto dias de vida da Eva. Ficamos sozinhos de manhãzinha. Dormimos.

Eu, Yvette e Eva, na visita pós-parto, três dias depois

Eu, Yvette e Eva, na visita pós-parto, três dias depois

Obrigada, mamãe, por compartilhar sua história!

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Author: Paola Lobo

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